terça-feira, janeiro 16

Diversidade Religiosa no Brasil




Ainda que os dados do IBGE sejam discutíveis do ponto de vista de estudiosos das Novas Religiões Japonesas ou da ótica das próprias Novas Religiões Japonesas, não podemos deixar de ressaltar que, gradativamente, as Novas Religiões Japonesas vêm se tornando mais visíveis no cenário religioso brasileiro. Em sua maioria foram fundadas na primeira metade do século XX (com exceção da Tenrikyo surgida na segunda metade do século XIX) e são religiões sincréticas, isto é, mesclam aspectos das religiões tradicionais como o Budismo e o Xintoísmo. 

Na década de 80, Koichi Mori apresentou um panorama geral das Novas Religiões Japonesas no Brasil numa tentativa de ordenação da sua história e da vida religiosa dos descendentes de japoneses. Dividiu-as em dois blocos, a partir de sua penetração no seio da população brasileira. De um lado estavam aquelas que conseguiram romper a barreira da etnicidade e foram bem sucedidas na conquista de seguidores sem ascendência japonesa: Seicho no Ie, Igreja Messiânica, Perfect Liberty, Soka Gakkai, Sukyo Mahikari.

No segundo bloco, agrupou as que não ainda conseguiram penetração expressiva entre os não-descendentes: Tenrikyo, Risho Koseikai e algumas seitas budistas tradicionais. Segundo o autor, as diferenças entre os dois blocos surgiram devido a diversos fatores: conteúdo da doutrina, estratégia de difusão e época de chegada no Brasil, entre outros. 

Referindo-se à Perfect Liberty, afirmou que "ao passar da difusão da seita para a doutrinação, mudando rapidamente sua estratégia, tratou de organizar o ensino doutrinário por meio da língua portuguesa e de adaptar os ritos e princípios doutrinários às necessidades locais." E ainda que, dentre as "medidas de localização" adotadas pela Seicho no Ie, estava "a formação de mestres-pregadores exímios da língua portuguesa e as traduções para o vernáculo das doutrinas e publicações". Continuou, dizendo que "especial atenção foi dispensada à tradução: não se tratava de transliteração pura e simples para o português. Foram tomados cuidados para adaptar-se ao contexto brasileiro. Este tipo de 'localização' se estende aos ritos e às atividades cotidianas." 

Com relação ao processo de penetração da Perfect Liberty na sociedade brasileira, Nakamaki aponta a mudança do idioma japonês para o português como fator imprescindível: "A maior barreira no processo de aceitação da Perfect Liberty no Brasil foi a língua. Sem comunicação, a difusão seria impossível. Como disse anteriormente, no processo de mudança do japonês para o português, decerto contou-se com o esforço dos missionários japoneses, porém os descendentes nissei serviram como uma ponte muito importante neste processo. Isto não se restringe a Perfect Liberty. Aplica-se à Seicho no Ie ou à Soka Gakkai. 

Assemelha-se à estratégia comercial das empresas japonesas que atribui cargos de diretoria a descendentes nisseis. Por outro lado, há também organizações, a exemplo da Igreja Messiânica, que têm enviado missionários brasileiros ao Japão com freqüência a fim de se especializarem no estudo da língua japonesa". Normalmente, lê-se sobre os aspectos positivos da adaptação das Novas Religiões Japonesas no Brasil. No entanto, nem sempre tudo é tão simples quanto parece. 

Em 1990, Paiva assinalou indícios do choque de culturas então vivido pela Perfect Liberty no Brasil. Embora com algumas particularidades, cremos que os pontos citados abaixo se aplicam, em maior ou menor grau, aos choques vividos por outras Novas Religiões Japonesas em processo de "abrasileiramento". 

São eles: 
– a elevada proporção de brasileiros não descendentes de japoneses entre os fiéis (90%), entre os Assistentes de Mestres (80%) e entre os próprios Mestres (cerca de 34%);
– a extensão do país, que torna precários os controles pessoais;
– envelhecimento dos pioneiros e sua saída de cena;
– a crescente proporção de universitários entre os 
– questionamento que se levanta quanto às particularidades da cultura japonesa veiculada nos ensinamentos da religião, que provocado temor pela fuga da organização brasileira ao controle central. 

Quanto a este temor, continua o autor: "Por isso, foram recolhidos Mestres favoráveis ao abrasileiramento da Perfect Liberty; foram enviados novos Mestres do Japão que, com os antigos, ficam no controle da cúpula, ao passo que os brasileiros são enviados para as frentes de expansão ou para o atendimento direto dos adeptos nas igrejas locais e retirou-se certa autonomia administrativa em proveito de uma organização de alcance continental, confiada a pessoa das mais próximas ao atual Patriarca".
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